Em sua primeira individual na Nara Roesler, Mônica Ventura apresenta mais de trinta obras inéditas, produzidas este ano, entre instalações, esculturas, pinturas e um vídeo, que dão continuidade à sua pesquisa desenvolvida nos últimos dez anos, em que resgata e reinterpreta elementos culturais pré-coloniais como a arquitetura e as técnicas de trabalhos manuais dos povos afro-ameríndios. A curadora Catarina Duncan aponta que a exposição: “Propõe um deslocamento do fetiche colonial para a obra ritual – não como relíquia etnográfica, mas como presença ativa”.
“Na obra de Mônica Ventura, acessamos uma série de práticas que aproximam objetos e processos rituais de diversas origens através da arte. Não como ilustração histórica, mas como prática, tecnologia simbólica, operação de transformação, matéria animada. Esculturas, pinturas, instalações surgem como corpos recipientes de energia, dispositivos de troca entre visível e invisível.” –Catarina Duncan, curadora
A curadora Carolina Duncan observa que “a cabaça atravessa a exposição como eixo formal e ancestral”.
“Para a artista, e a partir de muitas cosmovisões afro-indígenas, o fruto da Lagenaria siceraria, também conhecido como cuia, igbá ou poronga, é a forma matricial do mundo. Pensando a cabaça como vaso ritual e corpo ancestral, seu desenho curvilíneo, simultaneamente ventre, recipiente e semente, desdobra-se em múltiplas linguagens. A cabaça aparece em ouro, em aço corten, em madeira carbonizada, em cerâmica e em sua forma natural, tornando-se monumento: um corpo múltiplo.” –Catarina Duncan

As obras criadas a partir da cabaça são: “Paisagem para um sol negro (série A grande dama)”, em aço corten, cabaça, latão, com 190 x 100 cm, e “Caminho de ouroboros”, com cabaças naturais e folha de ouro; o conjunto de cinco esculturas “Excorpóreo” (# 01, 02, 03, 04 e 05), em madeira carbonizada e folha de ouro, dimensões variadas, em forma de cabaça, e as três esculturas “A guarda do tempo”, em latão.
“A exposição pensa identidades como rede em movimento contínuo, tornando o espaço expositivo em um laboratório, abrigo e altar. Da alquimia e da espagíria à construção de altares; dos modos de erguer paredes de terra às geometrias devocionais; das oferendas votivas às arquiteturas simbólicas que atravessam o hinduísmo e o Candomblé. Essências, circulação, retornos: tudo gira como roda. Nesse circuito, acessamos princípios dinâmicos como passagens, trocas e recomeços.” –Catarina Duncan

“Antes da forma, o encanto” apresenta também o vídeo “Excorpóreo – Renascimento através da chama”, 6’52”, as pinturas da série “Alteia” – “VIII”, “X” e “XI” –, em tinta óleo sobre tela, com 198 cm de altura e comprimento em torno de 200cm; a instalação “7 infusões”, em terra, sisal, vidro e latão; os conjuntos de esculturas “Pássaras” e “Passarinhas”, em porcelana, latão, madeira e folha de ouro; o conjunto de seis esculturas em terra, pigmento e latão “A noite suspensa”; e conjuntos de pequenas esculturas em terra, pigmento e latão, da série “Arrebóis”: “Corpo-oráculo” “# 01”, “#02”, “#03”, “#04” e “#05 ”
“A artista atua como pesquisadora: investiga materiais, cosmologias, técnicas construtivas, liturgias, plantas, óleos essenciais, metais, pigmentos e modos de fazer que atravessam tempos e geografias. Se o fetiche colonial procurou aprisionar o objeto em uma leitura fixa, Mônica Ventura devolve à forma sua instabilidade original. Cada obra é um feitiço que age, transforma e devolve movimento ao mundo”. –Catarina Duncan

Mônica Ventura (1985, São Paulo) é uma artista visual e designer, formada em Desenho Industrial pela FAAP, e mestre em Poéticas Visuais (PPGAV) pela ECA-USP. Seu trabalho investiga as complexas intersecções entre o feminino e a racialidade. Através de uma pesquisa aprofundada, a artista resgata e reinterpreta elementos culturais pré-coloniais como a arquitetura e as técnicas de trabalhos manuais dos povos afro-ameríndios. Para a artista, esse mergulho em saberes ancestrais é uma forma de reconexão pessoal.
“A ancestralidade é uma chave para lembrarmos quem somos, e seguir se desvinculando do plano colonizador que visa a polir a individualidade.” –Mônica Ventura
Sua prática multidisciplinar abrange vídeo, escultura e pintura, permitindo à artista transitar entre o espiritual e o concreto, e dar voz às experiências multifacetadas das mulheres negras, com um olhar que combina força e a delicadeza do feminino. Ao desafiar o formalismo estético, Mônica Ventura cria um “belo ruído organizado”, que convida o público a refletir sobre identidade, memória e poder. A curadora Catarina Duncan, no texto que acompanha a exposição, destaca que:
“A palavra fetiche chega ao vocabulário da arte marcada por uma violência histórica. Sua raiz remonta ao latim facticius, aquilo que é fabricado, artificial, feito pela mão humana. No português, o termo deriva para a palavra feitiço, utilizada no contexto colonial para nomear objetos venerados pelas populações da Costa do Ouro na África investidos de poder espiritual e tratados pelo olhar europeu como superstição, exotismo e desrazão.” –Catarina Duncan
Dentre suas exposições individuais, se destacam: “Mônica Ventura: Daqui um Lugar”, na Pinacoteca do Estado de São Paulo (2025) em São Paulo; “A Noite Suspensa ou o que posso aprender com o Silêncio”, no Instituto Inhotim (2023) em Brumadinho, Minas; “O Sorriso de Acotirene”, no Centro Cultural São Paulo (2018), São Paulo.

Mônica Ventura participou de importantes exposições coletivas em museus e instituições, como: “Cantando Bajito (Incantations)”, na Ford Foundation (2024), em Nova York, EUA; “Encruzilhadas da Arte Afro-brasileira”, no Centro Cultural Banco do Brasil (2023) em São Paulo; “Enciclopédia Negra”, na Pinacoteca do Estado de São Paulo (2021), em São Paulo; e “Histórias Feministas”, no Museu de Arte de São Paulo (2019), em São Paulo. Seu trabalho integra também as coleções do Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas, e da Pinacoteca de São Paulo, em São Paulo.

Nara Roesler organizou sua primeira exposição de arte contemporânea em 1976 em Recife; mudou-se para São Paulo em 1986, onde consolidou a galeria com seu nome em 1989, sendo hoje uma das principais galeristas do Brasil, reconhecida por desempenhar um papel fundamental na promoção e internacionalização de seus mais de 50 artistas. Com sede em São Paulo, Nara Roesler expandiu seu programa para o Rio de Janeiro em 2014 e tornou-se a primeira galeria brasileira a estabelecer uma presença internacional ao inaugurar, em 2016, um espaço em Nova York, reforçando seu compromisso com a difusão da arte nacional no cenário global.
Com o objetivo de fomentar consistentemente a prática curatorial e a pesquisa crítica, criou, em 2002, o Roesler Hotel, um programa que promoveu o intercâmbio entre curadores e artistas estrangeiros e brasileiros. Em 2011, foi a primeira galeria de arte contemporânea a criar uma editora, a Nara Roesler Books, que já publicou mais de 30 títulos. Ao longo de sua trajetória, a Nara Roesler tem contribuído significativamente para o desenvolvimento das carreiras de seus artistas, oferecendo suporte contínuo e plataformas de destaque para a apresentação de seus trabalhos, incluindo-os em importantes instituições, bem como em relevantes coleções privadas, tanto no Brasil quanto no exterior. Seu programa inclui nomes consagrados, como Abraham Palatnik, Amelia Toledo, Antonio Dias, Artur Lescher, Daniel Buren, Heinz Mack, Julio Le Parc, Lucia Koch, Tomie Ohtake, Vik Muniz, e uma nova geração de artistas consolidados, como André Griffo, Bruno Dunley, Jaime Lauriano, Jonathas de Andrade e JR.

Serviço: Exposição “Mônica Ventura – Antes da forma, o encanto”, na Nara Roesler São Paulo. Abertura: 26 de maio de 2026, das 18h às 20h em exposição até 1º de agosto de 2026. Curadoria: Catarina Duncan. Entrada gratuita. Nara Roesler São Paulo, Avenida Europa, 655. Segunda a sexta, das 10h às 19h, Sábado, das 11h às 15h. Entrada gratuita. Site: nararoesler.art